Distorções no setor de saúde

 

Por Karin Fuchs | karinfuchs@skweb.com.br

Do modelo assistencial à remuneração, presidente da Unimed Brasil mostra o que precisa mudar

A sustentabilidade do setor de saúde no país passa por várias vertentes. A começar que o tema não é discutido de forma unânime. “Cada um fala dos seus problemas e não dá para discutir saúde de forma individualizada”, disse o presidente da Unimed Brasil, Dr. Orestes Pullin, no primeiro Congresso Nacional Unimed de Gestão de Saúde, realizado em São Paulo, em junho.

Os setores público e privado também não se conversam, e há uma distorção dos gastos com saúde. Eles representam 8% do PIB, porém, a maior parte, 54% do total, é do setor privado, enquanto é o público que atende a maioria da população, cerca de 160 milhões de pessoas.

“A relação gasto público e privado com saúde no Brasil é pior que nos Estados Unidos, onde o gasto per capita é de US$ 9.403 e a participação do governo é de 48% do total. No Brasil, o gasto per capita é de US$ 1.300”, comparou.

Pullin defendeu que é preciso mudar o modelo assistencial, o que não é fácil, mas é preciso começar. “Mundialmente, o modelo de mudança em curso aponta para a Atenção Primária à Saúde (APS). Na Inglaterra, por exemplo, 40% dos médicos trabalham exclusivamente com atenção primária, no Brasil esse percentual não chega a 1%”.

O caminho é a formação. “Eu tenho chamado a atenção com relação à quantidade de médicos que irão entrar no mercado (formados). A Fundação Unimed já tem cursos de especialização em atenção primária à saúde para formar esses profissionais e, ao longo de tempo, conseguiremos mudar o modelo atualmente praticado. Essa mudança não é simples, é complexa”.

Remuneração

Outro ponto é a remuneração dos prestadores de serviços por eventos. “O grande problema está na cultura de maximizar os lucros, sem considerar a complexa cadeia de saúde. O desequilíbrio de ganhos e responsabilidades torna o setor insustentável para as operadoras e seguradoras. Sairá na frente quem conseguir operacionalizar de verdade o modelo de valor compartilhado”.

Para ele, novos modelos de remuneração precisam prever a qualidade, serem monitorados por indicadores de desempenho, indicadores de morbidade e de mortalidade, de satisfação e qualidade de vida do paciente. “É preciso mudar a lógica para mais meritocracia”.

Gestão

Com base em dados de 2015, Orestes Pullin citou que estima-se que R$ 22,5 bilhões são gastos pelas operadoras e seguradoras com fraudes e desperdícios com procedimentos desnecessários. “O desafio é melhorar a gestão do sistema de saúde. É necessário criar e fazer cumprir diretrizes que sejam mais indicadas e nós não temos indicadores de qualidade de saúde”.

E equacionar a transição tecnológica. “As tecnologias de saúde vêm passando por notáveis avanços, nos medicamentos, tratamentos e equipamentos. Mudaram os protocolos, mudou o nível de tratamento e estamos em plena fase de transição tecnológica para a sociedade, o que é muito bom, mas isso tem uma precificação que muitas vezes não é entendida pela população e pelos agentes de saúde, de maneira geral”.

Judicialização

Grande peso para o setor de saúde, na opinião de Pullin, a distorção ganhou força com a Constituição Federal de 1988. “O Judiciário passou a ter uma visão não só jurídica, mas social. E mesmo contra eventuais regras, a decisão é focada no que eles entendem como bem social. Isso é um custo enorme, pois algumas dessas decisões não têm amparo na boa prática médica, na regulação. Isso é um ônus para o Estado e para as operadoras e seguradoras”.

E quem paga a conta é o beneficiário, no cálculo do reajuste do plano. Mas já há alguns movimentos para minimizar esse cenário, como a criação do Núcleo de Apoio Técnico (NATs), por parte do Conselho Nacional de Justiça. “Isso está engatinhando, em alguns lugares os NATs evoluíram bem e em outros, não. Mas estão tentando melhorar e o Judiciário está começando a entender que eles não podem ter essa visão social”.

Mercado livre

Na visão de Pullin, se o mercado fosse livre os planos seriam mais baratos para todo mundo. “Essa ideologia de que o governo controla tudo tem levado a uma deformidade do setor, não tem dinheiro, não tem recurso”. Isso porque, explicou ele, os novos entrantes pagam pelos antigos planos deficitários.

“Se os reajustes tivessem sido adequados desde o começo, os novos planos não teriam o valor que têm hoje. Os antigos estão deficitários, é preciso cobrir uma conta que está negativa, por isso, o valor dos novos planos é aumentado”.

Ele também comentou quais seriam os impactos se a Justiça acatasse a recente liminar do Idec que pedia um teto de até 5,72% de reajuste para planos individuais. “O mercado iria parar de vender planos individuais ou colocaria um preço maior (ainda) no novo plano”. A liminar do Idec foi derrubada pela Justiça, após recurso movido pela Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS). O reajuste pode chegar a até 10% nesse ano.

Sobre a customização dos planos de saúde, a possibilidade de as pessoas poderem contratar coberturas específicas, Pullin reforça que isso só seria possível em um mercado livre. “Eu não acredito que haja condições de discutir isso hoje, pois há uma forte reação dos órgãos de defesa do consumidor. Dentro de um mercado livre, seria possível contratar as coberturas que quiser, mas não há espaço na regulação para isso”.

Potenciais vidas

Questionado sobre o real potencial do setor privado de saúde, Pullin comentou que havia uma estimativa de mercado de 60 milhões de vidas, mas ele acredita que esse número é utópico. “Eu acho fora da realidade, pois há um limite para as pessoas conseguirem pagar pelos planos”. E mesmo em um cenário mais favorável, o setor chegou a pouco mais de 50 milhões de beneficiários.

Com base em dados da ANS, referentes ao mês de abril, são 47,3 milhões de beneficiários, 34,7 mil a mais quando comparado a igual período de 2017. “E eu não acredito que esse aumento seja porque houve uma melhora na economia, mas sim porque talvez algumas operadoras que trabalham com as classes C e D conquistaram clientes que perderam seus empregos”.

Para finalizar, Pullin comentou sobre a atuação do corretor de seguros no mercado de saúde. “Ele é a porta de entrada dos clientes para as operadoras. Porém, por falta de ferramentas, hoje o corretor é um angariador de clientes e é cobrado se a carteira está custando muito ou não para as operadoras e seguradoras. A partir do momento que ele tiver ferramentas para acompanhar a saúde de seus clientes, a interação com ele será maior”.

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