Roubo de carga lidera as preocupações, mas acidentes com caminhões também concentram os maiores impactos

Roubo de carga lidera as preocupações, mas acidentes com caminhões também concentram os maiores impactos

Roubo de carga, avarias, acidentes rodoviários, tombamentos representam uma parcela significativa das perdas financeiras no transporte

O roubo de cargas segue como uma das principais preocupações do transporte rodoviário no Brasil. Limitar, porém, o debate logístico apenas à criminalidade é uma simplificação arriscada. O setor opera em meio a um ecossistema amplo de ameaças: acidentes, tombamentos, avarias durante carga e descarga, quebras de cadeia térmica, contaminação de mercadorias, incêndios, falhas mecânicas, extravios, erros operacionais e até eventos climáticos extremos. Muitos desses riscos, embora menos visíveis, geram prejuízos expressivos e ainda são subestimados pelas empresas.

Dados recentes da Pamcary indicam que 40,6% dos acidentes registrados no primeiro semestre de 2025 ocorreram na região Sudeste, reflexo direto da alta concentração de fluxos logísticos. O Nordeste aparece em seguida, com 22,7% das ocorrências. Entre os trechos mais críticos, destacam-se as rotas entre São Paulo e Rio de Janeiro, além dos corredores que conectam Minas Gerais a São Paulo.

Para João Paulo Barbosa, especialista em seguro de cargas e sócio-diretor da Mundo Seguro, ainda persiste uma percepção distorcida sobre as principais vulnerabilidades do setor.“O roubo de carga é o risco mais temido, mas não necessariamente o mais recorrente. Acidentes rodoviários, tombamentos e avarias representam uma parcela significativa das perdas financeiras no transporte”, explica.

Muito além do crime: o risco das estradas
Uma malha rodoviária extensa, trechos com manutenção precária, longas jornadas e variáveis operacionais complexas tornam os acidentes uma constante no setor. Colisões, saídas de pista e falhas mecânicas frequentemente resultam em danos severos às cargas. Entre esses eventos, os tombamentos figuram entre os mais críticos.“Um tombamento raramente gera perdas pequenas. Mesmo quando a carga não é totalmente destruída, há comprometimento estrutural, contaminação, inviabilidade comercial”, destaca Barbosa.

Dependendo do tipo de mercadoria, especialmente alimentos, medicamentos, químicos ou eletrônicos, o impacto pode ser imediato e irreversível.

Avarias: o prejuízo silencioso
Nem todas as perdas vêm acompanhadas de eventos dramáticos. Problemas de acondicionamento, manuseio inadequado, variações de temperatura, vibração excessiva durante o trajeto e falhas nos processos de carga e descarga frequentemente geram danos economicamente relevantes.Grande parte desses prejuízos ocorre longe dos holofotes. “Não há crime, não há acidente grave, apenas um produto comprometido, uma recusa na entrega ou uma disputa contratual. São perdas silenciosas, mas financeiramente relevantes”, afirma o especialista.

Eventos climáticos: de exceção a variável estratégica
Fenômenos climáticos extremos passaram a ocupar papel cada vez mais relevante na matriz de risco logística. Enchentes, deslizamentos, quedas de barreiras e tempestades severas têm provocado interrupções operacionais e perdas expressivas.Rodovias bloqueadas, veículos ilhados e cargas expostas a condições adversas tornaram-se ocorrências mais frequentes.“O impacto climático deixou de ser exceção. Hoje, faz parte da equação de risco, especialmente em determinadas regiões e períodos do ano”, alerta Barbosa. Além da perda direta da mercadoria, esses eventos geram atrasos, rupturas contratuais e desequilíbrios operacionais em cadeia.

O erro estratégico mais comum
Segundo o especialista, um dos principais equívocos das empresas está na concentração excessiva de esforços em um único tipo de risco.“Investir pesadamente em prevenção contra roubo e negligenciar riscos operacionais é uma decisão comum e financeiramente perigosa.”

A gestão eficiente do risco logístico, ressalta, exige uma visão mais abrangente, que considere tanto ameaças externas quanto fragilidades internas dos processos.

Independentemente da origem do crime, acidente ou falha operacional toda perda no transporte impacta custos, contratos e competitividade.“Cada sinistro gera efeitos em cadeia: aumento de prêmios, revisão de processos, desgaste comercial e pressão financeira. O risco logístico não termina na carga perdida”, conclui Barbosa.

Em um país altamente dependente do modal rodoviário, compreender que o roubo é apenas uma das variáveis e não necessariamente a mais onerosa é o que separa decisões reativas de estratégias verdadeiramente sustentáveis.No transporte de cargas, o risco mais visível nem sempre é o mais caro. ( Publika.aí Comunicação)