Seguro oferece suporte à diversificação da matriz de energia brasileira

Ampliação da agenda ESG faz com que os olhares estejam cada vez mais voltados para as fontes de energias renováveis, como eólicas e solar

Carol Rodrigues

No Brasil, atualmente a matriz energética é composta por usinas hidrelétricas e termelétrica e as energias chamadas renováveis como a eólica e a solar.
Segundo o Sistema de Informações de Geração da Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL), o SIGA, o Brasil somou 188.980,9 MW de potência fiscalizada até o final de 2022. Desse total em operação, 83,24% das usinas são consideradas renováveis.
Com isso, hoje, o Brasil tem uma das energias mais limpas do mundo. Essa é, inclusive, uma pauta mundial que integra um dos pilares da agenda ESG, sigla em inglês para Environmental, Social and Governance, em português Ambiental, Social e Governança (ASG).

Sidney Cezarino
Tokio Marine

“Há uma determinação mundial para que as empresas sob o grupo Tokio Marine forneçam produtos de seguro para energias renováveis. Esse é o nosso comprometimento, inclusive para direcionar que a Tokio esteja de acordo com o Acordo de Paris, que é incentivar uma sociedade livre de carbono”, comenta Sidney Cezarino, diretor de Seguros Patrimoniais da Tokio Marine Seguradora, para quem ao investir em projetos de energias renováveis, a companhia ajuda diretamente a agenda ESG.
Inclusive, o mercado segurador participa de acordos mundiais para apoiar cada vez menos a energia suja.

Marcio Ribeiro
KNW Brokers

Termelétricas com os dias contados?

A usina termelétrica é movida a óleo combustível, queima de carvão e gás natural em caldeira, ou seja, tem um processo poluente, e foi pensada no Brasil para uso emergencial. Ela atua como se fosse um backup e é um “mal necessário” quando o reservatório está baixíssimo ou em determinadas regiões que não têm hidrelétricas.

“Se um dia o governo do Estado pedir para ligar porque acendeu a luz vermelha, a termelétrica tem que estar pronta para operar porque tem que gerar energia para repor a ausência de recurso hídrico”, explica Marcio Ribeiro, CEO da KNW Brokers Corretora de Resseguros.

Em 2021, o Brasil passou pela pior crise hídrica em mais de 90 anos, que resultou em outra crise, a energética. Com os baixos níveis dos reservatórios de hidrelétricas, o país se viu forçado a ativar as usinas termelétricas para evitar o risco de apagões ou racionamento. “As primeiras apólices tinham taxas por período inoperante – 10 meses do ano – e uma taxa diferente por período operacional. Isso foi pensado em um período de estiagem normal. O que aconteceu foi uma estiagem muito mais prolongada do que o normal, o que forçou o uso das termoelétricas ao máximo, que passaram a ser usadas continuamente, o que gerou muita quebra de máquinas”, explica Cezarino.

Segundo Ribeiro, isso gera um debate em torno da agenda ESG. “A letra ‘E’ condena as termelétricas. Estive em Londres em novembro e conversei um pouco sobre isso e disseram que a letra ‘S’, por coincidência, vai salvar a termelétrica de ter seguro porque talvez ela seja o único recurso em um lugar ermo. Apesar de poluir, do lado social ela mantém a subsistência naquela localidade, então ela é absolvida do ‘E’. Mas sempre terá que ter governança”, compartilha.

Nesse ponto está a importância de oferecer suporte à diversificação da matriz de geração de energia no Brasil.

“Damos suporte para essas operações através do seguro. Com certeza a diversificação é benéfica para o País não sofrer algum evento que afete uma dessas modalidades de geração de energia”, acrescenta o diretor da Tokio.

Enzo Ferracini
THB Brasil

“Hoje, com a ampliação da pauta ESG, as empresas estão olhando muito mais para as fontes de energia renováveis, como eólicas e solar, as quais têm conquistado cada vez mais investimentos e relevância no mercado”, acrescenta Enzo Ferracini, vice-presidente Specialty da THB Brasil.
Para Haroldo Alves Araújo, presidente do Conselho Deliberativo da ABGR e Risk Manager da Companhia Energética de Minas Gerais (Cemig), a agenda ESG está associada em todas as atividades do setor, mas quando direciona-se o olhar para a matriz de geração, percebe-se o quanto o setor deve se dedicar a sustentabilidade ambiental.

“O setor de energia tem obrigação de sempre buscar meios para melhorar o desempenho e aumentar a oferta de energia disponível, pois não se consegue implementar os projetos de crescimento do País sem que o setor de energia esteja pronto. E não pode ser a qualquer custo, é imprescindível ter foco e cada dia mais buscar soluções sustentáveis sob o ponto de vista ambiental e social”.

Haroldo Alves Araújo
Cemig e ABGR

Programas de gestão de seguros

O setor de seguros contribui enormemente para o desenvolvimento do setor por meio de seus programas de gestão de seguros, com atuação de seguradoras, corretores de seguros, brokers de resseguro e empresas especializadas em gerenciamento de risco.

O presidente do Conselho Deliberativo da ABGR observa que os programas de gestão de seguros não são uniformes. Eles variam conforme amplitude de atuação das companhias (nacional ou internacional), política da empresa, regionalidade e se as companhias possuem área formalizada e dedicada à gestão de seguros ou não.
“Ter um time habilitado e interativo com as diversas áreas das organizações, é fundamental e demonstra a maturidade na administração do negócio. Com as alterações legais ocorridas, que possibilitou a entrada de empresas no setor com atuação em outros países, foi oportuno avaliar sobre a colocação dos riscos em seus programas mundiais, considerando assim a disponibilidade de contratar pacotes com todas as modalidades de ramos de seguros”.

No entanto, ele lembra que as empresas com atuação apenas no Brasil, continuam buscando em seus programas a colocação de seus riscos, considerando a segmentação por modalidade ou não, pois sempre devem levar em consideração o cenário macro de mercado segurador nacional.

Seguro Ferracini, a gestão de risco especializada para os clientes, a qual tem um papel muito importante na conscientização e adaptação das empresas, em busca de evitar grandes problemas na estrutura de produção. O efeito desse cuidado irá refletir diretamente na geração de sinistros, por exemplo, que tende a diminuir”, destaca.
Quando o assunto é gestão de risco, segundo o VP da THB, os principais desafios são identificar e administrar detalhadamente os riscos iminentes nas estruturas gerais de cada atividade do setor de energia. “Estar sempre atento às regulações e manutenção das estruturas é fundamental para evitar prejuízos”, alerta.

As colocações de riscos

O setor de energia que em seguros também é chamado de Power & Energy, está passando por um momento de dificuldades em suas colocações. “O aumento da sinistralidade no segmento de risco operacional tem se destacado negativamente e, para piorar, em algumas modalidades de geração, observamos ocorrências vinculadas a alguns modelos e fabricantes de equipamentos. Outro ponto muito importante está relacionado às grandes ocorrências climáticas ocorridas e que impactaram significativamente os mercados de resseguro e retrocessão, causando assim agravamento de taxas, aumento de franquias e restrições”, explica o Risk Manager da Cemig.

“Existem grandes dificuldades para a colocação, pois ela exigirá a apresentação de uma série de documentações e regulações da estrutura geral, as quais podem afetar a contratação do seguro, que pode encarecer ou até mesmo ser negado.  Por isso é muito importante a implementação de um sistema de gestão de riscos, que vai analisar todos os detalhes necessários para o funcionamento do processo, independente de qual seja”, diz o VP da THB.

Brasil pode construir capacidades mais inteligentes

Na visão do CEO da KNW, hoje há certa dificuldade para colocação desses riscos, em decorrência de capacidade, pois existe um preço novo. Afinal, durante alguns anos, em decorrência do excesso de capacidade no Brasil as seguradoras não precisavam de resseguro facultativo e faziam um pool de cosseguro e precificavam. Com os sinistros no setor, seja por desgaste, rompimento de barragem e quebra de máquina, as seguradoras não puderam usar o contrato automático, que é o cosseguro puro, e foram para o facultativo, que estava em uma escala distante.

“De largada, o segurado já pagou uma diferença e, se pagava R$ 400 mil, de repente passou a pagar R$ 900 mil porque estava acessando um capital diferente do anterior”, exemplifica, ao citar como impactos a pandemia de covid-19, a Guerra na Rússia e as perdas climáticas.

Em contextos como esse, na visão de Ribeiro, é necessário ao executivo brasileiro comprar resseguro de forma mais inteligente e, que em teoria, em Londres, é muito mais evoluído. “Eles fazem essas composições. O Brasil tem muito espaço para trabalhar estruturas de resseguro de forma mais inteligente a exemplo de mercados mais maduros, de formas não proporcionais”.

O diretor da Tokio Marine acrescenta que o mercado ressegurador tem sido duro com taxas e condições para quem não faz manutenção.

“Uma empresa corre o risco de ter o risco declinado pela manutenção e a falta de transparência de informações. Quem pode ajudar a resolver esse problema é o corretor de seguros, pois o cliente precisa ter lucidez do que está comprando”, enfatiza Ribeiro.
Segundo Cezarino, na Tokio a sinistralidade está controlada porque possui uma unidade de negócio focada em entender como funciona e aprender a subscrever o risco de forma correta e ajudar o segurado a melhorá-lo. “Continuamos no segmento mesmo no período de perdas mais duras no mercado. Somos fornecedores de seguro para o segmento e temos condições que possibilitam o equilíbrio dos contratos, entre resultado e sinistralidade. Também temos o nosso time de gerenciamento de risco e unidades de negócio especializada e um time de engenheiros especializados que faz as recomendações e acompanha durante a vigência da apólice”.

Especificamente para energia renovável (Fotovoltaica e Solar), a Tokio é acionista de uma empresa de gerenciamento de risco canadense chamada Clir. “Durante os três primeiros meses, essa empresa vai ao parque eólico e faz o acompanhamento de todo o funcionamento, os parâmetros de manutenção e de funcionamento das máquinas e compara com outras do mesmo segmento. Um relatório do estado da manutenção do parque é gerado. Esse é um serviço que oferecemos e quando o segurado atende essa recomendação, nós fornecemos um pacote de seguros mais atrativo para ele”, conta o diretor da Tokio Marine.

A carteira de Energy é uma das mais importantes nos Seguros Patrimoniais da Tokio Marine, responsável por 35% dos negócios e envolve várias áreas da companhia.
Na visão de Haroldo Araújo, o mercado segurador precisa se aproximar cada dia mais das empresas do setor de energia. “O nosso país é privilegiado por ser de clima tropical. Podemos, em um futuro breve, não sermos tão dependentes da matriz hidráulica. Várias formas de parcerias poderiam ser estruturadas, desde a fase de implantação até a etapa operacional dos segmentos eólico e solar. Vejo que além de serem fontes limpas e de baixo impacto ambiental, nos conduziria à diminuição da dependência da matriz hidráulica e dos acionamentos das usinas termelétricas”.

“A aproximação entre o mercado segurador e os consumidores de seguros é fundamental, pois a construção de soluções depende e deve atender as duas partes. É evidente que os dois lados como parceiros, procurem buscar boas alocações dos riscos com um custo convergente e interessante para ambos”, acrescenta o presidente do Conselho da ABGR.

Conteúdo da edição de março (251) da Revista Cobertura

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